a caverna de platão.

Trabalho da faculdade. Achei válido trazer pra cá minha opinião.

Leitura sugerida: Alegoria da Caverna, trecho d’A República, de Platão.

O que representam os prisioneiros da caverna?

Representam aquilo que se convencionou chamar de “homem médio”. Um ser que possui um mínimo discernimento das coisas e capaz de estabelecer conexões e associações, mas que infelizmente ainda não percebeu o potencial que possui, também por isso, não procura tentar mudar a realidade em torno de si. É alguém que crê que já extraiu tudo que possa ter extraído em termos de conhecimento e, a partir disso, estabelece que todas as respostas que conseguiu confeccionar são únicas, definitivas e, por isso mesmo, absolutas.

Quem é o prisioneiro que sai?

É interessante que a alegoria utiliza a expressão “que ele seja obrigado a endireitar-se imediatamente”; abrindo margem para se pensar que aquela mudança não é, em um momento inicial, querida por ninguém, nem mesmo por aquele que seria, em tese, o filósofo, pela sua curiosidade e pela sua vontade de aprender. Uma vez ultrapassada essa questão interpretativa, ouso afirmar que aquele que passou por este processo traumático é justamente aquele que teve a coragem, nas palavras de Jostein Gaarder, de não deixar o mundo ao redor de si passar despercebido. Esta pessoa é, precisamente, o filósofo, que não é indiferente àquilo que o rodeia.

O que representam as correntes que os aprisionam?

Na idéia proposta por Sócrates no diálogo, interpreto que as correntes que aprisionam os homens na caverna seriam a nossa condição humana elementar. Que a despeito de todos, em tese, termos a capacidade de ultrapassar as barreiras inicialmente impostas para a aquisição do conhecimento, apenas alguns o fará, e mediante um estímulo avassalador externo. Há quem veja tais correntes como a alienação humana. Agrave-se isso pela constatação trazida a lume por Agnes Heller, de que ser filósofo deixou de ser o que poderíamos, de forma simples, apregoar como um “estilo de vida” para tornar-se uma profissão. A Filosofia ficou, assim, limitada pela divisão social do trabalho. À parte das divagações, vejo, como outrora afirmado, que as correntes que aprisionam os homens são a nossa condição humana elementar, com a qual nascemos.

O que é a caverna?

A caverna é aquilo que muitos pensam ser a nossa realidade, mas que representa apenas uma reprodução bastante limitada de como nosso mundo realmente é. É o casulo confortável e cômodo do qual muitos se recusam a sair. E nesta ignorância do que podem conseguir, não podem lamentar o que perderam. Daí afirmar-se o que tantos apregoam sem perceber a profundidade do que afirmam: a ignorância é uma dádiva. Na alegoria utilizada por Jostein Gaarder, seria o nosso reflexo no espelho, que apenas com o passar do tempo e nosso interesse poderá ser polido a ponto de percebermos o que há do outro lado. O medo advém porque, uma vez polido o suficiente para vermos com clareza o que pertence ao outro lado, deixamos de ver seu reflexo.

O que é o percurso de saída?

O doloroso trajeto imposto a um dos homens que vivia acorrentado na caverna é o séquito de provações e dores que se faz necessário passar para que se possa atingir um ponto mínimo de questionamento e surpresa com o mundo ao nosso redor. Isso representa toda a angústia sentida por aquele que percebe a questão fundamental da filosofia: e, afinal, o que sei? E o que sei, será mesmo a Verdade?

Exemplifique uma caverna do mundo contemporâneo. Justifique.

Paradoxalmente, o fluxo de informações ao qual se tem acesso com tanta facilidade pode ser um agente incrivelmente alienador, tal qual a caverna proposta por Sócrates na República, de Platão. Isto ocorre porque há um fluxo, uma torrente tão interminável de mecanismos de compartilhamento de informação que se torna incrivelmente difícil tentar estabelecer um ponto de partida. A consequência é que muitas vezes lemos e tomamos ciência da informação que nos foi trazida a lume, mas não conseguimos refletir sobre tal informação, pois na sequência já há outra informação, e outra e outra. Há, portanto, a necessidade de se estabelecer um critério para filtrar tais informações, e isso nem todos conseguem fazê-lo tão facilmente. Some-se a isso a incrível capacidade do ser humano em falar bobagens (que por mais divertidas que sejam, e o são, infelizmente nem sempre atingirão a proposta de nos fazer refletir), e há uma explosão de conteúdo distribuído completamente sem critério.

Por este prisma, vejo a facilidade de acesso à informação hoje como um agente alienador, tal qual a caverna.

~ por liaguedes em abril 28, 2010.

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